Dedicado à defesa da fé protestante bíblica e autêntica e aos princípios da Reforma, respeitando a tradição litúrgica peculiar a cada comunidade dentro de sua realidade.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Aètica do Protestantismo Brasileiro em Face às Novas Eclesiologias
Os novos movimentos de cisão dentro da igreja protestante brasileira são um fenômeno característico e assustadoramente freqüente do fim do século XX e início do XXI. O neo-liberalismo e o mercado de consumo que oferecem alternativas múltiplas aos clientes, se aproximaram tanto das igrejas, que neste momento o Brasil vive um verdadeiro mercado plural em se falando de igrejas que carregam o ápodo de “evangélicas”. A maioria dessas comunidades eclesiais são fruto de querelas carismáticas e visionárias, muito embora existam denominações fracionadas por questão sobre seus membros pertencerem a alguma sociedade esotérica, mas que conservam seu corpo doutrinário e eclesiologia em pontos comuns na maioria dos casos. Este é o caso da IPIB e da IPB embora sua ruptura tenha se dado em inícios do século XX . Ainda há aqueles casos em que a ruptura deu-se por causa ecumênicas como, por exemplo a IPUB. O que se vê na maioria dos casos de ruptura, salvo os que aconteceram por questões de movimentos para-pentecostais , são novas igrejas livres surgindo dentro das denominações tradicionais e mesmo das pentecostais e neo-pentecostais. Esses últimos e mais a Assembléia de Deus, têm se mostrado nos tempos hodiernos como os que mais tem sofrido em seu seio divisões e rupturas, quer seja por “novas visões”, “iluminações proféticas” ou ainda por divisões causadas pela disputa interna de poder entre herdeiros espirituais . Um sem número de comunidades estão espalhados por todos os lugares, chegando alguns como os bairros de Vaz Lobo, no Rio de Janeiro e Itaipu, em Niterói a abrigarem uma quantidade enorme de lojas e salões transformados em templos religiosos nos quais o povo, geralmente oriundo de outras igrejas, se reúne para seus ofícios religiosos. Ao analisar detalhadamente os motivos de tantas divisões denominacionais e de igrejas não-denominacionais, podemos sentir que o protestantismo brasileiro de raízes históricas tem frente a si um paradoxo que deve ser objeto de incômodo para as lideranças das denominações e para as lideranças das igrejas locais: o risco de haverem divisões em suas congregações por influência dos novos hábitos e doutrinas semeados por tais movimentos ou a assimilação silenciosa desses hábitos pela comunidade eclesiástica, perdendo-se assim a identidade denominacional. Ao falar como evangélico batista, altamente doutrinário e ortodoxo, tenho em mente uma série de fatores que penso levarem as congregações históricas e pentecostais clássicas a sucumbirem ante o fenômeno religioso do “profetismo” moderno, ou como chamo, profetismo da mídia e do marketing . Como exemplo, temos este excerto monográfico:Na década de 60, surge aquele que segundo o autor, é o maior vulto do neopentecostalismo brasileiro: Robert McAlister. Oriundo das Assembléias de Deus e do Evangelho Quadrangular, esse canadense, filho de pastor pentecostal, funda a Cruzada de Nova Vida, que seria chamada posteriormente de Igreja. Apesar de ser uma igreja neopentecostal, não existe nela o uso das práticas comuns a essa ramificação, o quê a aproxima mais das igrejas históricas do quê das pentecostais .Foi no seio dessa igreja que na década de 70, houve um desentendimento entre o bispo Robert e alguns membros, entre eles Edir Macedo e seu cunhado, Romildo Rodrigues Soares. Edir Macedo teria pedido ao bispo que esse o ordenasse ao ministério pastoral, sendo esse pedido negado pelo bispo, com a alegação de que Macedo não teria condições para exercê-lo. Insatisfeito, Edir Macedo retirou-se da Igreja de Nova Vida juntamente com outros, e teria dito a Robert McAlister, que mostraria se tinha ou não vocação para o ministério .Começou então o grupo dissidente a reunir-se na praça do Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, onde o povo acorria para ouvir Macedo e seus discursos imediatistas, que com carisma e eloqüência fazia. Como o grupo crescesse rapidamente, Macedo e seus seguidores alugaram uma loja no bairro da Abolição, também na mesma cidade, lá se reunindo e dando a seu movimento o nome de Igreja da Bênção. Até aí, Edir Macedo intitulava-se pastor, mas como o movimento se expandisse rapidamente à custa de promessas espantosas de cura e prosperidade. Ele então avocou para si o título de bispo, talvez para afrontar a organização episcopal de sua antiga igreja, e também quem sabe olhando para o futuro que visualizava para si, a cabeça da estrutura hierárquica que é hoje a IURD. Essa sereia tem cantado às portas das igreja e atraído na maioria das vezes os jovens. Esses, pelo fato de que várias vezes têm suas congregações apresentarem para eles uma proposta de vida que está apenas no “celeste porvir”, abraçando um platonismo exacerbado, que nada oferece para este mundo a não ser a dor e o sofrimento, pois para alguns crentes, “sofrer por Jesus é maravilhoso” e assim pregam um evangelho masoquista, carregado de culpa e costumes. Ante a isso se apresentam as novas tendências eclesiásticas e as novas eclesiologias. Igrejas descomprometidas com estruturas e convenções, embaladas por cantos repetitivos e declarações de vitória, que mostram para esses crentes que “podem esperar as bênçãos”, que “Deus tem um pacto com você” e que “somos reis e sacerdotes, filhos do Rei e estamos reinando em vida”, deturpando as palavras de Pedro. Surgem pastores e pastoras aos montes, autodenominados assim e que “têm uma nova unção para profetizar a vitória em suas vidas”. Se formos estudar demoradamente os novos movimentos eclesiásticos, poderemos notar que são destituídos de estudos bíblicos e se contentam em ouvir as pregações e oráculos, sempre salvíficos e nunca de juízo, de seus apóstolos e líderes, geralmente episcopais, tendo em conta de que são vontade revelada de Deus aos homens por intermédio deles e alguns chegam ao ponto de fundar comunidades no site de relacionamento Orkut com o nome de “O Apóstolo falou, é lei”. Tal eclesiologia, baseada no personalismo e no carisma se torna objeto de veneração entre os adeptos de tais movimentos, a ponto de pessoas se ufanarem de que “fulano recebeu a visão apostólica” . Uma das armas utilizadas pela nova eclesiologia comunal ou “apostólica” é a ressucitação das festas judaicas. Celebram-se festas proscritas pela graça de Cristo e usam o cerimonial judeu em seus templos, usando o candelabro, o shofar, bandeiras de Israel e objetos do culto vétero-testamentário, numa liturgia acentuadamente judaizante, contrariando frontalmente as Escrituras:16. sabemos, contudo, que ninguém se justifica pela prática da lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo. Também nós cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justificação da fé em Cristo, e não pela prática da lei. Pois, pela prática da lei, nenhum homem será justificado.17. Pois, se nós, que aspiramos à justificação em Cristo, retornamos, todavia, ao pecado, seria porventura Cristo ministro do pecado? Por certo que não!18. Se torno a edificar o que destruí, confesso-me transgressor.19. Na realidade, pela fé eu morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado à cruz de Cristo.20. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.21. Não menosprezo a graça de Deus; mas, em verdade, se a justiça se obtém pela lei, Cristo morreu em vão. Ante tal fenômeno, pergunto eu: o que devemos fazer para manter o evangelho de Cristo dentro de sua pureza e livre de cargas mântricas ou levíticas? Qual seria a posição ética que a igreja protestante brasileira deveria tomar ante o crescente número de comunidades religiosas que surgem em cada esquina a cada dia e que inclusive carregam nomes de igrejas históricas, principalmente comunidades ditas “batistas”, mas que dessa denominação somente têm o nome (ou apelido)? Caio Fábio fala sobre o narcisismo como ferramenta de desunião e de desagregação cultivada pelas lideranças de certos segmentos, não necessariamente desses a quem nos referimos anteriormente, mas também dentro do protestantismo histórico. Essa visão narcisista, também chamada por ele de “Síndrome de Lúcifer” tem servido de fator de desunião, onde prevalece sempre a mentalidade das lideranças e o estado democrático de direito, presente também na Igreja, é substituído pelo mando pessoal e autoritário dos “achismos” pessoais . Se as igrejas tradicionais estão trilhando esse caminho, como então haverá reação ante os apóstolos e bispos surgidos a cada dia e que ao invés de pregarem o verdadeiro evangelho, falam de uma graça barata, achada na esquina, anti-bíblica e hedonista, baseada somente na retórica de confissões? Não que penso que devamos proibi-los de falar, afinal o nosso país tem liberdade religiosa constitucional e não temos o direito de fazê-lo, mas e o poder da Palavra em nossas igrejas? Como fica?O Pacto de Lausanne afirma que o evangelicalismo tem a missão integral:6. A Igreja e a evangelização Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.Tal afirmação não deixa margem para que se pense de outro modo e não deixa que o protestantismo brasileiro se coloque à margem da situação político religiosa. Enquanto os protestantes históricos se perdem em realizações de sínodos, convenções e presbitérios, impelidos por questões mais administrativas do que realmente práticas para a disseminação da Boa Nova do Evangelho de Cristo, as comunidades seguem produzindo o outro extremo, ou seja, anunciando um evangelho descomprometido com Cristo e coberto de bênçãos materiais, e isso imediatamente, não quando Jesus voltar. As igrejas esquecem-se da missão integral. Enquanto o profetismo da mídia e do marketing cresce assustadoramente com as suas ideologias destituídas de alicerces bíblicos, as igrejas tradicionais se limitam aos domingos e quartas-feiras. Ambas confundem missão integral, uma com prosperidade e positivismo e a outra com platonismo e “salvação de almas”. O homem em sua totalidade, cidadão da terra e do céu, fica esquecido em meio a visões anti-escriturísticas, baseadas no narcisismo e exclusivismo, embaladas por lideranças egocêntricas. Culpa do tradicionalismo exacerbado ou da liberalidade descontrolada?A Igreja Protestante no Brasil tem de repensar com cuidado a sua missão. A causa de haver esquecido em grande parte dela causou essa demanda de religiosidade carregada de emocionalismo e ansiedade e a alegria que deveria haver nos cultos foi substituída pela fleuma e “reverência”, havendo mais um ambiente de medo de falar e de se mexer do quê de cantar alegremente e sorrir pela satisfação com a graça revelada por Cristo. Que se modifiquem liturgias para a maior participação do povo. Que se dê mais atenção às bênçãos que Deus pode derramar sobre a vida de seus filhos hoje do quê o “ir para o céu” amanhã. Deus é Deus de hoje, não Deus de amanhã. 11. Educação e liderança Confessamos que às vezes temos nos empenhado em conseguir o crescimento numérico da igreja em detrimento do espiritual, divorciando a evangelização da edificação dos crentes. Também reconhecemos que algumas de nossas missões têm sido muito remissas em treinar e incentivar líderes nacionais a assumirem suas justas responsabilidades. Contudo, apoiamos integralmente os princípios que regem a formação de uma igreja de fato nacional, e ardentemente desejamos que toda a igreja tenha líderes nacionais que manifestem um estilo cristão de liderança não em termos de domínio, mas de serviço. Reconhecemos que há uma grande necessidade de desenvolver a educação teológica, especialmente para líderes eclesiáticos. Em toda nação e em toda cultura deve haver um eficiente programa de treinamento para pastores e leigos em doutrina, em discipulado, em evangelização, em edificação e em serviço. Este treinamento não deve depender de uma metodologia estereotipada, mas deve se desenvolver a partir de iniciativas locais criativas, de acordo com os padrões bíblicos.Que a Igreja veja a alegria de viver e, sobretudo, a Soberania de Deus e o Senhorio de Cristo sobre ela. Que as lideranças deixem as vaidades e ajam eticamente para com suas igrejas e para consigo e a sociedade. Que não copiemos os erros e nem deixemos que eles adentrem às nossas portas, mas que criemos alternativas bíblicas para o que hoje chamamos de adoração, para uma modificação radical, para que a nossa juventude não se deixe levar por sereias, mas que tenha ouvidos somente para o verdadeiro sentido da Palavra de Deus.Gilmar de Araújo Duarte.BIBLIOGRAFÍAhttp://www.abub.org.br/1principal/1recursos/Pacto_%20Lausanne.htm, acesso em 13/12/2007http://www.boanova.rg3.net/ Bíblia Católica. Acesso em 12/12/2007FÁBIO, Caio. A Igreja Evangélica e o Brasil. Profecia, Utopia e Realidade. Niterói, Proclama: 1997GEISLER, Norman. Ética Cristã.São Paulo, Vida Nova: 2002ROCHA, Alessandro Rodrigues. Teologia Protestante Latino-Americana. Um ollhar a partir da teologia de missão integral in In Certezas nº 2, ano 2007, Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da FATERJ/IBEC.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário